COP 28. A luta contra os combustíveis fósseis e o reino do petróleo. Destaques da Semana no IHU

De 28 de Novembro a 1º de Dezembro de 2023

Arte: Marcelo Zanotti | IHU

02 Dezembro 2023

A COP28 começa com uma dúvida: é possível falar de transição energética na casa de quem mais produz e lucra com combustíveis fósseis? E ainda: as contradições do Brasil na COP, o PL do Veneno, a necessidade de repensarmos o nosso machismo cultural sob outros ângulos, a doença do Papa e seu vigor nas lutas globais. Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana do IHU.

COP28: as raposas estão no galinheiro?

Começou esta semana mais uma conferência sobre as mudanças climáticas, a COP28. Depois do Acordo de Paris, em que as metas nem saíram do papel, a edição de 2023 começa também com polêmica: a sede do encontro é nos Emirados Árabes Unidos, a “Babel do petróleo”. Tem raposa no galinheiro!

Sem tempo

O que é ponto pacífico nas discussões – sérias e comprometidas – sobre as mudanças climáticas é que elas são inadiáveis. O chefe da ONU para o clima, Simon Stiell, é ainda mais contundente: já estamos sem tempo; é hora de agir.

Deu, chega de combustíveis fósseis!

E este agir tão cobrado por Simon Stiell tem nome e sobrenome: transição energética, com a urgente redução do uso de combustíveis fósseis. É por isso o petróleo esta na mira nesta COP, apesar da resistência de alguns países árabes e organismos como a OPEP. Os desafios são grandes e estão postos. O que é certo é que o bem-estar não tem a ver com petróleo.

Desacreditada

Mas precisamos reconhecer que, para muitos, esta COP está mais que desacreditada, ela está condenada ao fracasso. No entanto, Michael Sean Winters, jornalista americano, chama atenção para uma saída interessante: talvez seja bem mais eficiente apostar nas mudanças de curto prazo.

Brasil e suas contradições

O Brasil chega nessa COP com uma mala cheia de ações para mitigações da crise climática, com discurso presidencial recheado de crítica aos países ricos.

Errado, Lula não está. A mudança climática provocou perdas econômicas de US$ 1,5 trilhão em 2022, mas os países do norte aumentam o PIB, enquanto os países do sul arcam com as consequências. Agora, veja que a Petrobras prevê somente 11% de investimento em transição energética e descarbonização. Além do que, não descarta a controversa exploração de petróleo na Foz do Amazonas e ainda quer vender mais petróleo. Com a palavra, a ministra do Marina Silva:

Armagedon à vista

Este tal “Armagedon do clima”, do qual a ministra fala, já está no cotidiano das cidades, mostrando-se por meio eventos climáticos cada vez mais extremos. 8 de cada 10 brasileiros estão preocupados com a crise climática. E esta preocupação é tanto pelo presente quanto pelo futuro.

Exemplos não faltam

É evidente que a maioria dos brasileiros estão preocupados com a mudança do clima, pois quem não frita no calor no centro, norte ou sudeste do país, é afogado pelas cheias no sul. Embora os rios estejam voltando para o seu curso normal, a população guarda na memória a dor das enchentes. Uma dor que para muitos é algo tanto do presente quanto do futuro, como bem pontua Caio Flores-Coelho. Neste sentido, vale a leitura da entrevista com o professor Carlos Tucci que, além das mudanças climáticas, chama atenção do amadorismo brasileiro na gestão de suas águas. Ah, e sobre as máculas que ficam nas pessoas vítimas deste “amadorismo”, é importante conhecer a experiência da professora Gisele Dhein, da UNIVATES, que trabalha com a saúde mental dos flagelados no Vale do Taquari.

O Papa não vai

Esperado com grande expectativa, o Papa Francisco acabou tendo que cancelar sua ida à COP de Dubai. Por motivos de saúde, o pontífice fica em Roma, mas nem por isso abandona a pauta ambiental.

Saúde cada vez mais frágil…

Foi descartada a possibilidade de pneumonia no Papa Francisco. É uma boa notícia, embora a forma como a saúde dos pontífices é posta em público é sempre uma incógnita, como pontua Marco Politi. O fato é que Francisco está cada vez mais limitado pelo peso da idade, o que abre o flanco para especulações e opositores de plantão.

… mas ainda com vigor

Apesar dos problemas de saúde, Francisco ainda demonstra vigor para enfrentar temas espinhosos, como os que envolvem o cardeal Burke, que esta semana teve seus privilégios cortados. Outro tema do qual o Papa não foge é o da guerra, que lhe tem exposto sob vários aspectos, inclusive reeditando diferenças com rabinos e judeus.

Mexer nas estruturas da Igreja

E, apesar de tudo, Francisco segue seu caminho provocando mudanças na própria Igreja, como fez esta semana ao insistir que a Igreja é mulher e que cabe a nós destituir a ideia de patriarcado desta instituição milenar.

Outra perspectiva para as questões femininas

Esta provocação do Papa Francisco, inclusive, nos suscita a repensar como temas as questões do feminino. Massimo Recalcati, por exemplo, observa  que o machismo tem em seu interior muito do narcisismo. Neste outro texto, Recalcati ainda vai além ao pensar o patriarcado como um monstro de duas cabeças: o narcisismo e a depressão.

Giulia: uma morte entre nós

O feminicídio de Giulia Cecchettin na Itália, vítima de feminicídio, ecoa nas muitas mulheres pelo mundo que sofrem violência. No Brasil, só neste primeiro semestre, 722 Giulias foram mortas, conforme um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP. Tudo isto é fruto de um machismo de longa duração, que parece incrustrado em nós todos.

Mais que ensinar, dar testemunho

As coisas não são desconexas e Francisco sabe que, quando suscita a repensarmos a mulher numa instituição como a Igreja, ele quer também uma revolução contra a violência praticada contra mulheres. Afinal, é a partir de casa que somos educados, ou não, para este machismo estrutural. Nas famílias, mais do que bom discursos, o que parece surtir efeito é o testemunho, a forma como nós adultos nos relacionamos com as questões do feminino. É, como diz Enzo Bianchi, “educar para a relação”.

IA e misoginia

Neste mundo de alta tecnologia, se o machismo é cultural a produção da tecnologia acaba atualizando formas de misoginia. A francesa Anne Hidalgo, por exemplo, abandonou o X para se manter fiel às suas convicções. O tema também veio ao debate nesta semana em que se voltou a discutir Inteligência Artificial.

Progresso?

Volta ao centro deste debate sobre IA a ideia de progresso. Afinal, ao que parece, avançamos na tecnologia, mas somos incapazes de romper com velhos hábitos culturais. Aliás, para incrementar o debate, vale conferir a última conferência do 2º Ciclo de Estudos sobre Inteligência Artificial, promovido pelo IHU. A palestra “Futuros pós-humanos. Dos Eus digitais aos Demônios dos dados” foi proferida pela professora Dra. Laura Forlano, da Northeastern University, dos Estados Unidos.

Elas, as maiores vítimas também na guerra

Ao olharmos para a guerra como a que temos vivido em Gaza, até aí veremos que as mulheres são as que mais sofrem, ao lado das crianças. Elas, porém, nunca desistem de lutar.

Mais sobre a guerra

Após uns dias de trégua na Faixa de Gaza, Israel retomou os bombardeios. Israel tem insistido na guerra. Gaza tenta sobreviver naquilo que já foi mais do que destruído. Como constata Mahmoud Mushtaha, jornalista palestino, apesar do cessar-fogo, as bombas já destruíram tudo.

Natal, que Natal?

Estamos nos aproximando do tempo do Advento e do Natal. Impossível não pensar o que pode ser o viver o Natal neste ano de muitas angústias e incertezas justamente na terra onde Jesus nasceu. Difícil também é viver este espírito na Ucrânia ou em qualquer outro lugar em guerra no mundo, como no Congo, local em que nós, como humanidade, parecemos falhar.

Prato cheio… de veneno

Antes de encerrar, já que tratamos muito de meio ambiente, é preciso registrar um retrocesso nacional: nesta semana, o Senado aprovou o “Pacote do Veneno”. O mais triste é que os parlamentares que aprovaram isso, e que defendem o Marco Temporal, estão lépidos e felizes passeando na COP28. Enquanto isso, nós ficamos por aqui comendo belos e envenenados pratos, preparados com muita sordidez, como se nada houvesse.

Uma ótima semana a todas e todos!